A identidade do abraço ao outro - Plataforma Media

A identidade do abraço ao outro

Um “exemplo para o mundo”, frisa Carlos Morais José; num espaço denso que abraça todas as formas de ser. A “tolerância e a diversidade”, traço vincado numa cidade densa, que se adapta a tudo e a todos. A comunidade macaense, essa, “mais uma vez, vai sobreviver”, garante Miguel Senna Fernandes – agora, ao abraço da China. Caso único na descolonização, a Mãe Pátria atribui à língua portuguesa uma “importância incrível”, por força do “pragmatismo” que faz de Macau um “instrumento de política externa”, explica o economista Sales Marques.

A História muda as circunstâncias. Ainda a cavalo do jogo, indústria do monopólio – agora oligopólio – a caminho da Grande Baía, horizonte da diversificação económica e da integração regional. Mas a Plataforma também molda a identidade. O abraço do urso deixa respirar, respeita o legado da ligação lusófona. Sales Marques fala de uma “ironia muito interessante”. Macau passa a ser a plataforma para as relações económicas e comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa; hoje até mais abrangente, envolvendo questões como a cultura e a educação”. Pouco tempo depois “daquilo que podemos chamar descolonização – depende da perspetiva – a China absorve a língua e a cultura portuguesa, fazendo dela instrumento da sua política externa. O que é uma coisa fenomenal, mostra o pragmatismo único da China”.

Numa perspetiva sociológica, Carlos Morais José, diretor do Hoje Macau descreve uma identidade “complexa, em várias camadas, pois “mesmo as comunidades chinesas não são unas, têm origens diferentes. É uma cidade de encontros, de gente de todo mundo. E esta é também a sua riqueza”. A atual “sedimentação” de uma identidade sempre “móvel”, a multiplicidade de costumes e modos de estar, essa argamassa de tolerância das pessoas, umas com as outras, apesar de não partilharem uma cultura comum, é um dos traços importantes da sociedade de Macau, conclui, elogiando a capacidade de adaptação da comunidade macaense, que “sempre foi o sustentáculo de tudo isto” – e continuará a zelar pela diversidade. “A mudança vem aí, mas não é o fim. Se há uma presença portuguesa de 450 anos, ela pode continuar, com as adaptações necessárias”.

Miguel Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses, fala da “cidade onde cabe tudo”, puxando os galões da “legitimidade” específica dos macaenses, sempre capazes de antecipar o tempo. A fundação de Hong Kong empobreceu Macau – obrigando-os a emigrar. Os que ficaram, sob séculos de administração portuguesa, “há cerca de 20 anos começaram a sentir a necessidade de, mais uma vez, adaptarem-se a uma nova realidade… adotaram para a educação dos seus filhos uma componente mais forte da língua chinesa”.

A nova geração, garante Senna Fernandes, está perfeitamente integrada ao domínio do cantonense e do mandarim; vai ficar e continuar a sua comunidade. O mais importante é ter sempre a consciência da sua diferença, que está no cerne da sua identidade. Não tenho receio nenhum da sobrevivência da comunidade. A sua diferença faz enriquecer este tecido populacional”. Macau, terra de contradições, sobreviveu 400 anos com à cultura chinesa, “monolítica e impermeável”, também “graças à sua relativa insignificância. A China nunca se deu ao trabalho de causar um conflito por causa de uma nesga de terra. Antes aproveitou para abrir uma janela para o mundo”.

Sales Marques, também ele macaense, concorda: “Apesar da retroversão para a China, da dinâmica de integração no Continente, mantém-se o princípio do Segundo Sistema. Nota-se a partir da criação da Grande Baía medidas para forçar a integração”. Contudo, “houve sempre uma ligação bipolar à província de Guangdong, pela ligação direta a Pequim, sem perder a cultura do sul da China. Macau foi sempre e será diferente de qualquer outra cidade chinesa – e isso não provém apenas da influência portuguesa”.

Numa altura em que o mundo “treme com o despertar, Carlos Morais José defende um papel especial reservado aos portugueses, outro pilar da identidade local: “Temos de nos adaptar e não acredito que a gastronomia, ou a língua portuguesa se extingam. Mas também depende de nós saber ler a China – Macau soube sempre fazê-lo”. Também por isso, projeta “uma identidade baseada no mais; mais inclusão – e menos exclusão”.

Plataforma promove todos os debates sobre identidade lusófona

Celina Santos, professora universitária, quis sempre manter discreta a sua identidade. Mas sem ela não havia as Jornadas do 10 de Junho. O Plataforma aceitou o repto e promove online, desde quarta-feira todos os debates e entrevistas sobre a identidade do Mundo de Língua Portuguesa. Veja tudo em www.plataformamedia.com 

Já lá está o debate sobre a identidade de Macau, bem como a entrevista ao presidente do Instituto Camões, além das conversas sobre línguas e dialetos de Timor-Leste; Países Africanos de Língua Portuguesa e Goa. Amanhã publicamos o Brasil.

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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