Cabo Delgado: Al Qaeda, "piratas em terra" e militares corruptos

Cabo Delgado: Al Qaeda, “piratas em terra” e militares corruptos

“Os moçambicanos não tolerarão de forma repetida a chantagem da guerra cíclica movida por grupos de indivíduos manipulados para sustentar o ego das elites internas e externas”, afirmou recentemente o Presidente moçambicano, sobre Cabo Delgado, pela primeira vez assumindo o envolvimento das elites militares em ataques mortais até agora oficialmente atribuídos a “grupos armados sem rosto”.

O PLATAFORMA contactou ontem dois empresários portugueses com interesses económicos na região, que pediram anonimato, preferindo nesta altura “evitar exposição”. Confirmam contudo uma “longa história de ameaças e chantagem” levadas a cabo por parte de “grupos armados”, que “param se lhes pagam; atacam se lhes é negada” a chamada “taxa de segurança”.

Em Maio do ano passado, Portugal desperta para o drama quando a Gabriel Couto, empresa de construção civil com investimentos também em Angola, denunciou o assassinato de um dos seus funcionários. A investigação policial foi incapaz de produzir conclusões, mas entre os empresários estrangeiros o problema é conhecido de perto: “Dizem-se da Al Qaeda; na verdade são grupos armados que atravessam a fronteira, vindos da Tanzânia, para cobrar a paz”, explica um empresário que há mais de uma década conhece a realidade em Cabo Delgado.

Calton Cadeado e Muhamed Yassine, professores de relações internacionais, citados ontem pela rádio Voz da América, lembram que “não é a primeira vez que o Presidente fala de atores internos (…) a alimentar o conflito, embora desta vez com “grande diferença no tom”. Nyusi  surpreende a elite política moçambicana ao assumir “elites militares que beneficiam da guerra, e põem dinheiro nos bolsos como resultado”. Concluem os analistas: “Vamos partir do princípio que o Presidente da República foi muito bem assessorado e já percebeu a dimensão real do problema de Cabo Delgado”.

Até agora, a versão oficial mencionava sempre “atacantes sem rosto”, mantendo o tabu em relação a atividade terrorista da Al Qaeda, taxas de segurança, ou corrupção militar. No final da semana passada, na sequência do ataque sofrido por uma delegação dos Médicos sem Fronteiras, as Nações Unidas acrescentaram o tráfico de drogas como motivo adicional dos ataques; tese admitida como possível por alguns analistas moçambicanos. 

Entretanto, investimentos na ordem dos 25 mil milhões de dólares em torno da exploração de gás estão paralisados; e o país está em suspenso pela guerra, “o maior vírus em Cabo Delgado”, na expressão do bispo católico de Pemba, D. Luis Fernando Lisbona.

Exposta a fragilidade na proteção da fronteira com a Tanzânia, crescem em Moçambique vozes internas a sugerir apoio externo, nomeadamente por parte das Nações Unidas. 

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