“A qualidade esteve no topo das prioridades e assim continuará” - Plataforma Media

“A qualidade esteve no topo das prioridades e assim continuará”

A internacionalização e os intercâmbios são as apostas de Stephan Morgan, novo reitor da Universidade de São José (USJ). Morgan admite abrir novos cursos mas sempre mediante uma condição: a excelência. O teólogo galês, quarto reitor da instituição, não teme a competição da Grande Baía. Defende que Macau e a USJ têm vantagens únicas. A relação com a Lusofonia é a que destaca. Reconhece os obstáculos, como estar impedido de recrutar alunos do Continente, mas acredita que a limitação não decorre de ser uma universidade católica.

– Que balanço faz do trabalho do antigo reitor, Peter Stilweel?

Stephen Morgan – Tudo o que venha a alcançar só será possível porque fez um trabalho fantástico. Sinto que estou sentado no ombro de um gigante. 

– A qualidade foi o principal objetivo nos últimos oito anos. Continuará a ser?

S.M. – Sabemos que nem sempre podemos ter excelentes programas, assim como sabemos que nem sempre podemos ter excelentes alunos. Mas a qualidade da educação esteve no topo das prioridades e assim continuará. Quaisquer mudanças serão sempre partindo do princípio de que estamos a oferecer a melhor educação possível. 

– Falou em mudanças. O que tem em mente?

S.M. – Procuramos formar pessoas da maior integridade, intelectual e pessoal, capazes de pensar de forma crítica, criativa e rigorosa, que saiam daqui fluentes na sua língua materna, em inglês, e possivelmente noutro idioma. Quem vem para aqui já a dominar o inglês e o chinês, provavelmente sairá a saber português. Se formarmos estudantes assim, teremos atingido o que nos propusemos. Se daqui a quatro anos, quando terminar o primeiro mandato, não tivermos dado passos nesse sentido, terei falhado.

– Insisto nas mudanças. Há algo em vista?

S.M. – Tenho algumas ideias que não posso partilhar porque não as debati com as respetivas partes. Não lidero uma equipa, lidero com uma equipa. E com isto não me estou a desresponsabilizar porque se algo correr mal, serei sempre o culpado. Trata-se apenas de conceder autonomia às pessoas porque assim responsabilizam-se e a instituição só tem a ganhar. Devo ressalvar que delegar implica cometer erros, mas quando se exclui a possibilidade de errar, exclui-se também a possibilidade de ser criativo. Estou à espera que acabemos por cometer erros, tão inevitáveis como necessários. 

– Que impacto terá a situação pandémica criada pelo novo coronavírus?

S.M. – Parte dessa questão depende de quanto tempo vai durar, que não sabemos assim como não sabemos como será a vida depois. Não acredito que viajar volte a ser como era em dezembro de 2019 e isso afetará a vontade de estudar fora, especialmente na licenciatura. Óbvio que a situação nos criará dificuldades, mas estou orgulhoso pela forma como respondemos às circunstâncias. Em muitos cursos, demoramos apenas uma semana na transição para o online. 

– Vai passar a ser uma aposta?

S.M. – Não acho que a educação online seja uma opção sem limites. O ensino presencial é fundamental. Mas funcionou. O Governo de Macau foi extraordinariamente flexível. Fiquei muito bem impressionado com as medidas tomadas. Quando o Chefe do Executivo tomou posse, ninguém antecipava o que iria acontecer no espaço de seis semanas e respondeu de forma extraordinária. Consigo imaginar situações em que haja uma simbiose entre o ensino presencial e o online. Notei que os estudantes se tornaram bastante independentes. A qualidade foi superior à do ano passado e isso por terem sido obrigados a ter de trabalhar de forma mais autónoma.

– No discurso de posse referiu que quer dar primazia à internacionalização. Pode explicar melhor a ideia? 

S.M. – O objetivo é concretizar colaborações que permitam, por exemplo, a possibilidade de os nossos estudantes passarem parte do curso em Portugal, outra parte aqui e outra noutro sítio qualquer. É assim que nos internacionalizamos e atraímos estudantes, não só desta região como de todo o mundo. 

– No discurso realçou Portugal. 

S.M. – Não apenas Portugal, como todo o mundo lusófono e a região do Sudeste Asiático. Há universidades católicas nou

tras regiões que só oferecem licenciaturas. Há alunos dessas instituições que gostariam de continuar os estudos numa universidade católica. Somos parte de uma grande família de universidades, o que é uma grande vantagem.

– O inglês é dominante na USJ. Tem sido um problema?

S.M. – Se queremos ser uma universidade internacional, para o bem ou para o mal, o inglês faz sentido. É a língua mais falada no mundo. Já o chinês é falado por uma grande percentagem de pessoas e o português é o idioma mais falado no hemisfério sul. Podemos juntar as três frentes. Uma universidade na China que ensina em inglês e com um legado lusófono é uma vantagem gigante. 

– Também nesse discurso realçou que há algo que só Macau pode oferecer. De que falava?

S.M. – Do encontro entre a cultura europeia, materializada na portuguesa, e a cultura chinesa. É verdade que um aluno pode ir para qualquer sítio se procura internacionalizar-se, mas a maioria desses locais não é verdadeiramente internacional. Uma das características mais especiais de Nova Iorque é a mistura cultural, é isso que a difere de outras cidades. Quando se procura uma educação internacional tem de se ir para um local que seja genuinamente internacional e acho que Macau é. Sim, é uma cidade chinesa e é preciso reconhecê-lo. Parte do que Macau oferece parte dessa premissa, mas é mais do que isso. 

– Macau tem agora o desafio da Grande Baía. Que vantagens e obstáculos lhe encontra?

S.M. – Pode olhar-se para a competição como um problema ou como um repto que nos desafia a pensar sobre o que oferecemos que os outros não oferecem e que colaborações podemos trazer a outras instituições. É sobre estas questões que devemos refletir. Estou a trabalhar com um colega que está a supervisionar doutoramentos em conjunto com outro colega que leciona em Hong Kong mas vive em Guangdong, e que também dá aulas na Universidade Sun Yat-sen. É deste tipo de coisas que falo. 

– E ao nível de universidade, que dificuldades espera?

S.M. – Claro que há obstáculos. Um deles é não podermos admitir estudantes do Continente. Mas vivemos com essa adversidade há 24 anos. Se isso mudar, mudará porque nos tornámos um parceiro de confiança para quem toma decisões no Continente. 

– Antecipa dificuldades porque a USJ é uma instituição católica?

S.M. – Não. O acordo entre o Vaticano e a China, em setembro de 2018, é uma indicação de que a China reconhece a Igreja Católica como uma instituição de boa-fé e é também essa a minha experiência. Quando fui a Pequim, em janeiro, fui muito bem recebido por responsáveis que tomam decisões neste campo dos estudos religiosos [representantes da Frente Unida] e não senti que fosse um problema, pelo contrário. Entendem perfeitamente que não procuramos doutrinar. O objetivo é servir a comunidade e passar valores humanos, que entendemos do ponto de vista do Humanismo Cristão. Enquanto fizermos isso, estará tudo bem.

– Porque nunca puderam recrutar alunos do Continente?

S.M. – Não sei. Nunca foi possível. Quando Macau e Pequim acharem que estamos preparados, teremos todo o gosto em recebê-los.

– É uma prioridade?

S.M. – Gostava muito de receber estudantes do Continente, mas não posso forçar a que me autorizem a fazê-lo. O melhor que posso fazer é demonstrar que não somos uma ameaça. Entretanto, se as coisas mudarem, ótimo. Se não mudarem, haverá paciência até que mudem. Não tenho intenção de forçar. 

– Como pretende estruturar a oferta da USJ. No mandato do reitor Peter Stilwel, foram fechados cerca de 30 cursos. 

S.M. – Foi de uma grande sensatez. A sobre especialização ao nível da licenciatura não faz qualquer sentido sob o ponto de vista económico mas também sob o ponto de vista da educação. Uma universidade não é uma escola de formação. Haverá tempo para a especialização. Qualquer curso novo que possamos abrir terá de ser de excelência. Somos uma universidade internacional, de cariz católico, sediada no sul da China, com uma bagagem profunda de interação entre a China e a Lusofonia. Somos também uma universidade que desde o início se focou nas Humanidades e Ciências Sociais e parece que é assim que o Governo nos vê e é assim que quer que continuemos. Acho que aproveitando as políticas para o ensino superior e esta dinâmica, Macau pode ser um hub internacional do ensino superior na Ásia da mesma forma que o Dubai está a tentar tornar-se no Médio Oriente. Nesta mistura que é o ensino superior em Macau, nós temos um papel.

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