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A cor do capital

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À porta do primeiro voo direto Pequim-Lisboa, a 26 de Julho, a Capital Airlines, que opera essa ligação intercontinental, lança também quatro voos semanais entre Macau e a capital chinesa, assegurando a ligação histórica, emocional e política entre Macau – plataforma lusófona nesta parte do globo – e a base europeia para o mundo de língua portuguesa. Muito se especulou sobre o que faria a Air Macau a propósito dessa oportunidade. Nada! Aliás, o que mais vezes faz a companhia de bandeira da região.

Gera-se agora expectativa em torno de uma segunda ligação estratégica, entre Xangai e Porto, cidades que simbolizam empreendedorismo, comércio e negócios. Será o turismo a viabilizar essas rotas, mas há muito para além disso. O projeto lusófono é uma peça da geoestratégia chinesa, que serve Macau mas não depende disso, cabendo à região perceber melhor essa missão e as oportunidades que lhe estão associadas.

Surgem contudo contratempos. Em Portugal, a eurodeputada Ana Gomes levantou suspeitas em torno da entrada da Three Gorges na EDP, circunstância aproveitada por alguns “velhos do Restelo” para questionar, em abstrato  a legitimidade do capital chinês. Isso não faz qualquer sentido, mas importa averiguar o que se passou – se é que se passou algo – para que tudo regresse à normalidade.

Deste lado, a situação é mais melindrosa. Segundo o The New York Times, por trás do Grupo HNA, acionista da TAP por via do consórcio Atlantic Gateway – e da companhia brasileira Azul – estará Wang Qishan, diretor do órgão máximo de combate à corrupção na China. O mesmo, aliás, que alegadamente domina a Capital Airlines, segundo denúncia de Guo Wengui, bilionário chinês exilado nos Estados Unidos.

Nada se prova na estória do diário de referência norte-americano. Mas há duas evidências: primeiro, mais que um simples discurso, a plataforma lusófona seduz a elite chinesa, disposta a investir nessa rota – o que é natural e positivo. Depois, o capital chinês é alvo de especulação e escrutínio a Ocidente, onde se teme o poder do Império do Meio. Não sendo justo e equilibrado, à luz da livre circulação de capitais com outras origens, é uma resposta à opacidade do regime chinês – e vai continuar a acontecer. 

Pequim tem de tomar preocupações, sobretudo na elite do Estado, para que a circulação do capital chinês se faça com maior transparência e aceitação. 

Paulo Rego

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