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Cor única promete mudar São Tomé e Príncipe

A vitória no domingo do candidato presidencial da Ação Democrática Independente (ADI) em São Tomé e Príncipe mudou o panorama eleitoral do país, dando o poder ao partido no Governo e na Presidência. 

“Agora não há desculpas. Só têm que trabalhar e não vale reclamar porque o Presidente não deixa alguma coisa”, diz Xuxi Geba, empregada de um hotel na capital, no rescaldo da longa noite eleitoral. Foi já de madrugada que Evaristo Carvalho soube que iria ser Presidente, com 50,1 por cento dos votos, vencendo à primeira volta o até agora chefe de Estado, Manuel Pinto da Costa. 

Junto à sede de campanha e perante uma centena de apoiantes que esperaram a contagem dos votos durante longas horas, Evaristo Carvalho mostrou-se satisfeito, mas agradeceu também o apoio da ADI, do primeiro-ministro Patrice Trovoada, que também estava presente. “Estou satisfeito e desde o início que considerava que eu iria ser vitorioso. É uma vitória para São Tomé e Príncipe, uma vitória para o povo de São Tomé e Príncipe”, afirmou. Agora, Evaristo Carvalho promete ser um “Presidente colaborador, conselheiro”, mas também um “Presidente fiscal, sempre atento para que tudo corra dentro da normalidade”.

Já o líder da ADI elogiou os são-tomenses, que escolheram dar ao mesmo partido a vitória nos dois principais órgãos de soberania. “O que o Governo pediu foi que o país possa ter maior coerência a nível das instituições, melhor relacionamento a garantir a estabilidade”, afirmou Patrice Trovoada. “Nós apoiamos a candidatura de uma personalidade que tem todos os requisitos para poder, com o Governo, inaugurar um período de estabilidade para São Tomé e Príncipe”, justificou Trovoada. 

Em 25 anos de democracia, São Tomé e Príncipe teve 18 governos e nunca nenhum executivo conseguiu completar o mandato. Há dois anos, Patrice Trovoada obteve uma surpreendente maioria absoluta, mas a história recente do país também mostrava que nem isso era garantia de aguentar quatro anos. Por isso, a ADI apostou tudo na vitória de Evaristo Carvalho, 75 anos, pai de 25 filhos e um dos históricos apoiantes da família Trovoada, agora com Patrice, anteriormente com Miguel (quando este foi Presidente da República).

“O ADI manda nisto tudo. Estabilidade. Estabilidade”, gritava de madrugada António Santos, visivelmente satisfeito com a vitória do seu partido. Agora, prometem todos, é tempo de governar. “Já não pode haver desculpas”, diz Xuxi Geba, que apoia o vencedor, também porque o país “estava farto da instabilidade e das queixas de toda a gente”. 

Como há dois anos, o voto dos jovens pesou no resultado final, mas a diferença, desta vez, veio do círculo urbano da capital, zonas tradicionalmente dominadas por Pinto da Costa. Sempre à frente na votação, Evaristo Carvalho só conseguiu perceber que ganhava à primeira volta quando chegou às mesas eleitorais mais populosas de Mé-Zochi e de Água Grande. “Foi duro, voto a voto, mas conseguimos”, afirmou Patrice Trovoada. 

As acusações de fraude e de favorecimento dos ‘media’ estatais começaram logo no dia das eleições, com os candidatos derrotados a queixarem-se de inaugurações do Governo no dia de reflexão e alguns eleitores a reclamarem que o seu voto foi descarregado por outra pessoa. No entanto, para a missão de observadores da União Africana, as eleições decorreram com “serenidade”, não existindo indícios fortes de fraude.

Só que São Tomé e Príncipe é conhecido pelo ‘banho’, a tradicional compra de votos e, uma hora antes do final da votação, muitos eram os eleitores a queixarem-se de que havia menos dinheiro a circular que noutros anos. “Estou à espera de ‘banho’. Sem isso não voto”, dizia uma mulher, perto da Escola Primária D. Maria de Jesus, que admitia exercer o direito de voto a quem der mais: “Um milhão (32 dólares ) ou meio (16 dólares) e eu vou. Agora, não vou sem nada”.  Apesar disso, as caixas multibanco e os bancos esgotaram as dobras na sexta-feira, um sinal de que o ‘banho’ ainda circulou.

Evaristo Carvalho obteve 50,1 por cento dos votos, contra 24,8 por cento de Manuel Pinto da Costa e 24,1 por cento de Maria das Neves, (apoiada pelos partidos da oposição parlamentar). Segundo o presidente da Comissão Eleitoral, Alberto Pereira, votaram cerca de 71 mil eleitores, uma abstenção de 35,91 por cento.

“São resultados provisórios porque o resultado definitivo será anunciado pela assembleia de apuramento definitivo”, afirmou. No total, o candidato da ADI ganhou nos distritos de Água Grande, Mé-Zóchi, Caué, Lobata, Cantagalo e Lembá e nos círculos eleitorais da diáspora em Portugal e Gabão. Já Maria das Neves venceu na região autónoma do Príncipe e em Angola. Pinto da Costa venceu somente na Guiné Equatorial.

No final, Evaristo Carvalho obteve 34.629 votos e Manuel Pinto da Costa 17.121 , seguindo-se Maria das Neves com 16.638, Manuel do Rosário com 488 e Hélder Barros com 194 votos. Uma diferença de apenas 188 votos, que já motivou pedidos de anulação do ato eleitoral.

Fontes das candidaturas de Maria das Neves e de Pinto da Costa já manifestaram essa intenção, argumentando que, ao contrário da opinião dos observadores da União Africana, “as eleições “não foram nem livres, nem justas, nem transparentes” . 

Paulo Jorge Agostinho

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