MAZIÚA 1914: A ENTRADA DE MOÇAMBIQUE NA I GUERRA MUNDIAL - Plataforma Media

MAZIÚA 1914: A ENTRADA DE MOÇAMBIQUE NA I GUERRA MUNDIAL

 

Milhares de pessoas tombaram em território moçambicano, por uma guerra iniciada e terminada na Europa, feita por potências europeias e que iniciou um ciclo cujas consequências ainda hoje persistem

 

Nas capitais e algumas cidades dos países da região deparamos, onde os monumentos não abundam, com estátuas alusivas à Primeira Guerra Mundial, que teve o seu início em 1914 e o termo em 1918. Foi o primeiro conflito da era global, marcado por um número de mortos sem precedentes. O início de um século que se mostrou ter sido o mais sangrento da história da humanidade. Qual razão dessa estatuária nestes países, aparentemente tão distantes do epicentro de combates da Primeira Guerra? Algum resquício do tempo colonial ou outra razão existe para que esses monumentos, sem registos históricos, nem objeto de cerimónias, subsistam, desafiando o tempo? A justificação reside no facto de a Grande Guerra não só ter tido um impacto directo nesses países, como em muitos deles se registaram violentos combates, com inúmeros mortos e prisioneiros que transformaram o cenário das suas vivências.

Em Maputo, na Praça dos Trabalhadores, ergue-se frente ao majestoso edifício da sede dos Caminhos de Ferro uma grandiosa estátua, alusiva a esse conflito. A maioria ignora a razão pela qual conseguiu sobreviver ao período pós-independência. Sem entrar no lado estético da obra, as alusões nela inscritas – Nevala, Quionga, Negomano – nada dizem ao comum dos cidadãos. Resistiu e, ainda bem, às intempéries da história. Lembra que a Primeira Guerra Mundial, cujo primeiro centenário se assinala, um pouco por todo o mundo, não só se refletiu em Moçambique, como foi tumúlo para centenas de milhares de cidadãos que tombaram em território moçambicano, por uma guerra iniciada e terminada na Europa, feita por potências europeias e que iniciou um ciclo cujas consequências ainda hoje persistem.

 

MAZIÚA, NOITE DE 23 DE AGOSTO DE 1914

Este escrito lembra como o conflito se iniciou em Moçambique. É uma modesta contribuição para o conhecimento da rica história deste país e uma homenagem aos milhares de milhares que tombaram “guerra estúpida”, como lhe chamou um historiador, Constitui também uma reflexão sobre esses dramáticos anos, cujas consequências se refletem ainda hoje e pode ajudar-nos a refletir como a humanidade se pode lançar num cataclismo global de repercussões extraordinárias.

Permanecem válidas as palavras do presidente John Kennedy, quando do auge do conflito dos mísseis em Cuba, opondo os Estados Unidos à URSS, lembrava aos seus assessores mais aguerridos se tinham lido os “Canhões de Agosto”, da premiada autora Barbara Tuchaman, em que descreve, de forma brilhante, como se iniciou a Grande Guerra.  O anoitecer de 23 de agosto de 1914, na povoação de Maziúa, situada nas margens sul do rio Rovuma, na província do Niassa, a cerca de quatrocentos quilómetros de Pemba, terá sido relativamente cedo, certamente cacimbenta, com o tédio e a calma de um posto de sentinela perdido na fronteira do norte de Moçambique, sem qualquer tipo de comunicações. Acresce que era um domingo.

Em Maziúa, os dias da semana, pouco ou nada alteravam a vida dos seus parcos residentes. O chefe de posto de Maziúa, o sargento enfermeiro naval, Eduardo Costa, de 27 anos, ao serviço da majestática Companhia do Niassa, (criada em 1890, abarcando quase 180 mil quilómetros quadrados) não saberia que a Primeira Guerra Mundial havia eclodido na Europa e que escaramuças militares entre alemães e ingleses já tinham ocorrido no então Tanganica (atual Tanzânia). A 8 de agosto, barcos de guerra ingleses bombardearam Dar-es-Salam, sem consequências de maior, exceto afirmar que a guerra não seria apenas entre os exércitos que se confrontavam na Europa.

O sargento Costa comandava uma pequena força de polícias da Companhia majestática que tinha sob seu controlo as províncias do Niassa, de Cabo Delgado e de Nampula e que durante o seu tempo de existência pouco ou nada fez de desenvolvimento, exceto na cobrança do imposto de palhota, não olhando a meios para esse fim.

Na manhã de 24 de agosto o posto de Maziúa, com as suas palhotas e celeiros estava completamente queimado e jaziam mortos por terra, quase toda a sua guarnição. Durante a noite um grupo armado, comandado por um médico cirurgião de nome S. Weck, atravessara o rio Rovuma, com alguns “askaris” (designação que os alemães deram aos soldados locais ao seu serviço) – e dizimou por completo esse pacato e até então desconhecido posto de sentinela. O sargento Costa, homem de baixa estatura, “olhos escuros, cabelos pretos”, que segundo o seu registo militar sabia “ler, escrever e contar”, com os nove policiais anónimos da Companhia do Niassa, foram mortos sem saber porquê e entraram para a história, porque nessa noite de 23 para 24 de Agosto, o primeiro conflito armado global, batia à porta da colónia de Moçambique. E, por azar dos destinos, foram os primeiros a tombar, numa guerra cujo fim só seria conhecido em Novembro de 1918, depois de muita destruição e de milhares de mortos e de várias incursões alemães pelo território nacional.

Que razões terão motivado o cirurgião alemão a tal comportamento são um mistério da história. Tratou-se de ato premeditado, como alguns autores, hábeis nas teorias da conspiração, defendem? Pensamos que não. A posição de Portugal, de neutralidade até 1916, era conveniente para os alemães, porque a frente de combate na África oriental estava centrada no eixo entre o Quénia, sob ocupação britânica e o Tanganica, ocupado pela Alemanha. Provavelmente, terá sido produto de excesso de heroísmo germânico do médico.

Para termos uma ideia do sistema de comunicações, existente na altura, o ataque de Maziúa só foi relatado ao Governo-Geral, na então Lourenço Marques, a 15 de dezembro, ou seja quase quatro meses depois.

 

MOÇAMBICANOS AO SERVIÇO DA GUERRA

A Primeira Guerra Mundial que se estreava em Moçambique teve consequências catastróficas. Primeiro, pelo número de mortos que causou. Os números nunca serão exatos, mas calcula-se que terão morrido entre 80 a 100 mil moçambicanos, numa guerra cuja causa não era sua. Para além dos numerosos contingentes expedicionários enviados de Portugal, de acordo com números oficiais, terão sido mobilizados para a frente de combate 10.278 soldados moçambicanos (um número cuja exatidão revela a pretensa  precisão burocrática numa zona sem controlo administrativo e em guerra) e 8.000 soldados auxiliares. Todos enquadrados em “companhias indígenas”, sempre comandadas por oficiais de raça branca e provenientes, na sua maioria, da parte sul do país.

Mais de 60 mil carregadores foram “contratados” e mais de 30 mil “cedidos” às tropas britânicas, em consequência da velha aliança destes dois países. Na altura das conversações de paz, em Versalhes, em 1919, estes números foram trazidos para a mesa para compensações financeiras devidas pela Alemanha. Não se conhece, na distância da memória, que alguma vez tal qualquer indemnização fosse paga às vítimas nacionais caídas no seu solo.

No território moçambicano, a partir da declaração de guerra da Alemanha a Portugal, em 9 de março de 1916, estiveram em combate, batalhões de portugueses, de alemães, ingleses, sul-africanos, soldados da Índia trazidos pela Grã-Bretanha, cidadãos do Tanganica, da Rodésia do Norte e da Niassalândia. A guerra atinge o seu climax em 1917, estendendo-se do norte de Cabo Delgado e do Niassa até Namacurra, bem perto de Quelimane. Eram os alemães a perseguir as forças portuguesas e os ingleses e aliados atrás dos alemães, deixando um rasto de destruição, sem nunca terem vencido uma batalha ao general das forças alemãs Von Lettow Vorbeck, que durante quatro anos, sem qualquer apoio do seu país, travou uma guerra contra mais de 250 mil soldados. Uma guerra que, no seu percurso, na sua localização (dentro das colónias africanas das potências europeias), foi sempre deixada no esquecimento, lembrada aqui e ali por alguns monumentos, cemitérios dispersos, campas sem nome no meio do mato, memórias perdidas.

 

ESTABELECIDAS AS FRONTEIRAS

As consequências para Moçambique da Primeira Guerra não podem ser ignoradas. Nas negociações de Versalhes entre vencidos e vencedores foram estabelecidas, por tratado, em definitivo as fronteiras do país. Acresce que nessa definição, Quionga, local estratégico, não só pelas riquezas que contém como pela sua própria posição geográfica, ficou em definitivo como parte integrante do território do país. A mais, a guerra e a forma desastrosa como correu em Moçambique, demonstrou que as forças armadas enviadas da metrópole (Portugal) eram frágeis e podiam ser combatidas. Demonstrou, com uma realidade dura e difícil de descrever, como os moçambicanos foram arregimentados como carregadores de um exército sem moral, sem espírito combativo. Tratados como verdadeiros escravos, milhares foram cedidos à Inglaterra, a seu expresso pedido, tendo como destino a então Niassalândia (atual Malawi, onde morreram mais de 120 mil pessoas). É bom lembrar que desde a unificação alemã feita por Bismark, havia o claro objectivo germânico de possuir colónias, para rivalizar contra a Inglaterra e a França.

A Conferência de Berlim, organizada pelo poderoso chanceler Bismark, foi um desastre diplomático e político para Portugal. A tese dos direitos históricos foi um fiasco, face às pretensões das grandes potências europeias e ao apetite alemão de estender os seus domínios. Nos primórdios de 1911, surgem artigos publicados na imprensa alemã defendendo a anexação alemã de territórios em África sob administração portuguesa. Citem-se alguns trechos: “Já é tempo do predomínio infecto dos latinos ceder lugar a um povo são”. Os conceitos da raça ariana não foram produto exclusivo da ideologia nazi de Hitler. E, de forma mais contundente se escreve “os selvagens da Europa, como os pretos denominavam os portugueses, demonstraram bem a sua incapacidade para colonizar e civilizar”.

 

PARTILHA DE MOÇAMBIQUE

Diga-se, em abono da verdade, que a ocupação colonial alemã de territórios em África deixou profundas marcas de selvajaria. Desde campos de concentração no então Sudoeste Africano, hoje Namíbia, até ao extermínio de revoltas, como foi o caso da repressão sangrenta da chamada revolta Maji-Maji, no Tanganica, no início do século XX. A publicação destes artigos na imprensa alemã não era ingénua, ou fruto de paixões de domínios imperiais em África. Já em 1899 se tinha negociado um tratado entre a Inglaterra e a Alemanha para a divisão de Moçambique.

Anos mais tarde, o princípe Lichnowoski, embaixador alemão junto da Grã-Bretanha, reata com o astuto político inglês, Eduard Grey, a partir de 1911, as bases de um novo tratado para a partilha das colónias portuguesas. No caso de Moçambique, a proposta era a extensão do domínio germânico até ao Zambeze. E os ingleses ficariam com o sul, sobretudo com o domínio dos cobiçados portos da Beira e de Lourenço Marques, que tão úteis lhes foram para a sua vitória na guerra anglo-boer.

Nas vésperas do início da Primeira Guerra, o tratado secreto, aguardava assinatura para ser publicado, contra a vontade dos alemães que não queriam a sua divulgação, para não incomodarem os interesses franceses e continuarem a comprar territórios à administração portuguesa. Mais do que questões burocráticas, a razão da não implementação desse tratado, que traria um outro desenho ao atual mapa de Moçambique, é que todos os políticos europeus não só sabiam que a guerra era inevitável, como também a desejavam.

Não saberiam que era o começo da queda da Europa, como potência dominante e da sua substituição pelos Estados Unidos da América. Estariam longe de pensar que a Grande Guerra em muito contribuiu para o sucesso da revolução bolchevique em 1917 e a afirmação do comunismo, como poder de Estado.  E, se hoje olharmos para a realidade do Médio Oriente, veremos como muitos dos seus atuais problemas têm a sua origem na divisão política traçada em Versalhes em 1919. Por isso o ataque alemão na noite de 23 para 24 de agosto de 1914, ao posto de sentinela de Maziúa, continua a ser um alerta para um mundo perigoso e globalizado em que vivemos. Vale a pena ser lembrado.

 

Fernando Amado Couto / Savana

 

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