Paulo Rego - TALVEZ CAVACO PERCEBA - Plataforma Media

Paulo Rego – TALVEZ CAVACO PERCEBA

Quando Manuel Pinho, então ministro da Economia, veio à China vender Portugal como um país de mão-de-obra barata, caiu-lhe em cima o carmo e a trindade. Vários artigos de opinião zurziram no ex-governante, tratando-o como uma espécie de atrasado inteletual, tão rico em gafes como pobre na gestão política. De facto, a frase foi muito infeliz, explorada fora de contexto, e parecia não ter jeito algum. Afinal, o homem até era um visionário.

O discurso da massa crítica qualificada e barata anda hoje nas bocas do mundo. A queda abrupta dos rendimentos da clases média, aliada à tese de que o Estado quer vender tudo o que tem – sobretudo aquilo que dá lucro – transforma a “Pérola do Atlântico” num destino competitivo para o investimento estrangeiro. Seja ele chinês, angolano ou brasileiro. Se capital marciano houvesse, seria bem vindo.

José Sócrates, o primeiro-ministro que na altura trouxe Pinho à China, definia-se como um reformista. Como caiu em desgraça, num país moralista e castigador, muitos negarão a evidência de que, com todos os defeitos que teve, modernizou o país em muitas áreas. O seu discurso pecou muito pela arrogância, que acabou por pagar cara. Mas a questão é mais estrutural: desde Afonso Costa se sabe que pode ser mortal querer mudar um país dominado por forças conservadoras; tenham elas a mão no capital oligárquico ou a mente das forças sindicais de bloqueio. A História mostrará um dia que Sócrates veio à China com um discurso de modernização e de internacionalização da economia portuguesa. Naquela altura, aproveitando a circunstância de presidir à União Europeia, usou – e abusou – do cargo para ser recebido um pouco por todo o mundo, forçando a relação com as novas potências emergentes e outros destinos para além do espaço europeu. Portugal dava os primeiros sinais de querer diversificar as relações comerciais e políticas. O que é que nunca fez Sócrates? Nunca valorizou Macau como ponte para a China. Aliás, nunca ninguém naquele país foi capaz de ouvir o que Pequim diz sobre isso.

Passos Coelho muda muita coisa, escudado nos critérios da intervenção externa. Mas não enfrenta tudo nem todos, protegendo-se do ataque das corporações e do poder fático. Imoral ou inteligente? Bem… certamente pragmático. A classe média que pague a crise; o Estado despe-se de encargos, de deveres e de responsabilidades… Quem quiser que compre o que está à venda, que é fácil e barato.

É uma fórmula. Aliás, tem base teórica, trazida para Lisboa pelos arautos da curva “J”. Já caiu o que tinha a cair, dizem os mais otimistas. Está a dar a curva e a recuperar, dizem os ainda mais otimistas. Pode ser que um dia o povo sinta a recuperação.

Os ministros de Passos Coelho têm vindo à China. Paulo Portas não será reformista, mas não é propriamente destituído, nem tem dinheiro para ser conservador. Assina os vistos dourados e apregoa o valor do capital comunista. Faz bem. É a lei do pragmastismo. A China nunca foi verdadeiramente prioritária na política externa portuguesa e Lisboa perdeu muito tempo a perceber a dinâmica deste lado do mundo. Por isso, e por muitos outros motivos, não foi capaz de capitalizar a relação cimentada com o sucesso da transferência de poderes em Macau. Mas isso está a mudar. Cavaco Silva devia ter vindo mais cedo. Mas antes tarde que nunca. O Governo que faça o “trabalho de casa”, sinaliza o Presidente, que aparece como uma espécie de locomotiva a puxar Passos Coelho para o comboio oriental.

A China percebeu tudo mais cedo. Desde a retoma de Macau, passando pela liberalização do jogo, até à necessidade de diversificação económica.Tem um projeto lusófono, uma parceria estratégica com Portugal, relações fortíssimas com o Brasil, uma dinâmica crescente em Angola, Moçambique, Timor-Leste… Já esteve até mais longe de São Tomé. Pequim investe no euro, porque é oportuno e porque tem horror à falência do seu principal mercado de exportação. Por outro laso, assim também combate a hegemonia do dólar e o império do Tio Sam. Faz o que lhe compete e serve à sua estratégia: vai comprando o que tem valor, fixa poder e relevância na porta escancarada do bloco europeu. É verdade que nem tudo é como era e a crise também chegou ao milagre chinês. Pequim tem os seus próprios problemas: a economia cresce abaixo da linha de segurança, o modelo de produção intensiva está esgotado e a internacionalização do capital terá de retrair-se por necessidades domésticas de investimento. Contudo mantém-se, no discurso e na prática, o eixo estratégico defenido pelo menos há uma década. No capítulo do projeto lusófono, Pequim faz mais do que isso. Carrega constantemente na valorização do papel de Macau como ponte para a Lusofonia. É um modelo. Não é santo nem ingénuo. Tem lógica, faz caminho, e pode dar muito jeito a Portugal. Olhando para aquela mesa, com Rui Machete ao lado de Cavaco Silva, intui-se um dos problemas de uma agenda que, sendo percebida, pode ter outras forças de bloqueio. Washington não gostará muito desta viragem. É da vida.

Cavaco Silva terá percebido. Se não percebeu, pelo menos sentiu alguma coisa. Não é um político feito de charme, nem tem especial jeito relacional. Mas algo se passou que o transfigurou em Macau. Na conferência de imprensa, perdeu o seu jeito formal e seráfico, atirou piadas aos jornalistas, riu, brincou, lamentou não ter tempo para uma jantarada… Estava solto; fisicamente cansado, mas nitidamente satisfeito com a viagem. Era como se estivesse a ver uma luz qualquer ao fundo do túnel. Falou mesmo de emoções e transmitiu a ideia de se ter comovido com o carinho que sentiu em Macau. Pequim e Xangai podem ser muito importantes, as oportunidades são certamente muitas e têm uma escala que, finalmente, estará a ser percebida. Mas “é aqui”, disse, que os portugueses são verdadeiramente valorizados e reconhecidos. Afinal, 15 anos depois da transição, a Região parece apaziguada com ex-colonizador. Até há quem tenha saudades do passado, contou-lhe uma jornalista chinesa. O Presidente rejeita a ideia: vem com “prazer”, diz, mas “sem saudosismo”. Mas vem também aprender. “O ar em Portugal é limpo”, disse-lhe um empresário chinês de Macau. Cavaco Silva entusiasmou-se. Afinal, o homem que nunca se enganava veio aprender que Portugal tem mais um ativo no qual nunca tinha pensado.

Cavaco Silva faz parte de uma geração que devia ter percebido tudo isto mais cedo: a crise no mundo, a dimensão da China, a simbologia de Macau, a oportunidade do projeto lusófono chinês. Até porque tem esse capital que só a China lhe dá, por ter sido ele a assinar a Declaração Conjunta, sem fazer farinha nem criar conflitos. Fez bem. Mas depois não fez o resto, menosprezando esse capital que tinha acumulado. Talvez agora tenha mesmo percebido. Antes tarde do que nunca.

Talvez não seja mais um discurso vazio, porque o país precisa mesmo de se levar a sério; talvez o oiçam em Portugal, onde há dezenas de escribas treinados em traduzir Cavaco Silva; talvez um dia alguém ouça em Lisboa o que a China diz sobre Macau; talvez um dia, em Macau, se perceba melhor onde isto nos pode levar.

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